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terça-feira, 7 de maio de 2024

Quer Fazer a Sua Corrida de Megalesia?

No último post mostrei o jogo que fizemos para aquecer os motores para o Megalesia Ludi: o Megalesia Circus, uma corrida para buscar o culto de Cibele lááá na Frígia e trazer para Roma. Como achei o jogo divertido, vou colocar aqui as instruções se quiser fazer o seu.

Esse é o tabuleiro do Megalesia Circus, com as cinco paradas em destaque.

A primeira parte é ter o tabuleiro e montar pelo menos cinco desafios interessantes para cada uma das bases principais: Roma, Delfos, Pessino, Cnossos e Siracusa. Aí vale a pena ou olhar a história da busca da deusa Cibele (que tem no último post), ou a história de cada lugar, ou alguma lenda ou característica associada a eles. Essa foi a lógica que segui para as provas de cada casa numerada nessa edição:

  1. Roma: no relato da busca de Cibele, a missão foi criada a partir de uma consulta aos Livros Sibilinos. Profecias costumam ser difíceis de interpretar, portanto um desafio de decifrar código pareceu bem apropriado;
  2. Delfos: Xiiii, aqui é conhecido por profecias de novo. Colocar outro desafio de código fica bem repetitivo, né? Para escapar dessa sinuca o desafio de Delfos foi um caça-palavras para identificar diversos personagens, deuses e itens relacionados a profecias;
  3. Pessino: É, aqui eu fiquei sem idéias, a cidade em si não ajuda, a principal aparição dela nas histórias é exatamente o fato do templo de Cibele ficar aqui. Usando a deusa como base, como muitos dos nomes dela são relacionados a "mãe", a prova foi identificar várias mães da Mitologia escritos em uma língua "estrangeira";
  4. Cnossos: Lar do Minotauro e do Labirinto. a prova óbvia seria algo envolvendo labirinto, né? Mas prova de labirinto dá trabalho, então fui por outro caminho. A ilha de Creta e a civilização minoana tem uma relação forte com touros, então a prova aqui foi uma palavra cruzadas para revelar qual divindade estava relacionada a cada animal;
  5. Siracusa: A ideia inicial era fazer uma espécie de Batalha Naval usando o raio de calor inventado por Arquimedes. Mas Batalha Naval tem o mesmo problema de Labirinto: dá trabalho. Arquimedes foi estabelecido no Riordanverso com o maior filho de Hefesto que já existiu. Ok, a prova foi relacionada às obras de Vulcano. Resolver anagramas com diversas coisas criadas pelo deus das forjas.

Tem o tabuleiro e tem seus desafios? Agora tem que cuidar das casas pelo caminho. Tinha feito as cores diferentes para ser fácil de diferenciar uma casa da outra e destacar um pouco do fundo bege, mas acabaram sendo úteis para outra coisa: usei as cores para separar os tipos de provas de quem caísse em uma dessas casas. Claro, não podiam ser provas difíceis iguais as das bases, a ideia é só providenciar um pouco de desafio, não deixar ninguém maluco. Caso os jogadores não conseguissem resolver o desafio, tinham que voltar uma casa. E quais eram os tipos de provas?

  • AMARELO: Provas artísticas, gravar um vídeo rápido, cantar uma música, escrever uma poesia, desenhar alguma coisa. O importante é cumprir as regras: se é para desenhar um dragão de duas cabeças, tem que lembrar um dragão e ter duas cabeças;
  • LARANJA: Provas de texto/agilidade, remover as vogais de um texto, inverter as letras, escrever de trás para frente, etc. Isso é chatinho de corrigir, vale a pena manter os textos razoavelmente curtos e depende da prova um gabarito a mão para comparar;
  • VERMELHO: Perguntas e respostas do Riordanverso. O ideal é que a pergunta seja direta e a resposta curta e simples. A pergunta não precisa ser necessariamente fácil, pode ser algo obscuro, mas a resposta precisa ser simples, nada do jogador fazer um podcast para responder.

Um ponto que eu acho importante é uniformizar a grafia dos nomes para os jogos, tem muitas provas que dependendem de como se escreve um nome. A fonte de autoridade eram os livros do Rick Riordan. Então, quando havia várias versões diferentes do mesmo mito, valia a que estivesse escrita nos livros. E nas provas de caça-palavras, cruzadinhas, traduções, etc? A grafia nos textos das provas era sempre a dos livros. Facilita para os jogadores e para quem vai corrigir.

Nas perguntas e respostas aí fica a gosto de quem aplica se vai aceitar grafias diferentes ou não. Costumo usar a regra do "deu para entender? Tá valendo!", mas sei que isso não agrada a todo mundo.

Ah! E para montar os desafios em cada casa do mapa dá para seguir dois caminhos:

  1. Um pool com problemas de cada tipo. Para cada jogador que chegar em uma casa amarela, pega um desafio artístico do pool. As provas não se repetem, mas também não tem relação com o caminho.
  2. Cada casa tem o seu problema específico. Quando o jogador chegar na casa amarela perto da ilha de Lesbos, o desafio artístico ser uma poesia. A experiência fica mais imersiva com os desafios direcionados para a posição do jogador no mapa, mas as provas se repetem sempre.

Nos jogos online que fizemos e que a ideia era jogar uma vez, usamos a estratégia 2. Inclusive porque os desafios eram aplicados em grupos separados. Apesar das provas se repetirem, um grupo não via a solução dos outros. Se for jogar presencial ou com todo mundo no mesmo grupo, acredito que jogar com a estratégia 1 seja bem mais válido e divertido.

Para andar pelas casas, pelo tamanho do mapa, não é bom usar direto um dado de seis faces (1D6), utilizaria ou 1D6/2 (joga um dado de seis lados e divide o resultado por dois e arredonda para o inteiro imediatamente acima: 1 e 2 são 1; 3 e 4 são 2,; 5 e 6 são 3) ou 1D4. Se quiser, pode usar cartas, roleta, cartela de números, dados no celular, etc. O importante é ter um jeito para os jogadores caminharem pelo mapa e que não seja previsível.

E é isso, prepare o seu mapa, monte seus desafios e divirta-se na Corrida Maluca para buscar Cibele na Frígia e trazer a Roma!

terça-feira, 30 de abril de 2024

A Corrida (Maluca) de Megalesia

No final de semana do dia 28/04 tivemos um evento do Acampamento Júpiter SP: um piquenique com treino de swordplay usando o nome do festival romano Megalesia Ludi. Os jogos de Megalesia. Esses jogos foram criados em homenagem a uma deusa "importada" da Frígia que atende por um montão de nomes diferentes: Deusa Frígia, Cibele, Mãe dos Deuses, Deusa Mãe, Grande Mãe, Magna Máter, etc. Agora, como que uma deusa lá da Frígia acaba em Roma e, ainda por cima, ganhando jogos em homenagem a ela e tals?

E por "deusa lá da Frígia acaba em Roma" entendam exatamente isso: uma delegação saiu de Roma, foi até a Frígia onde ficava o templo principal da deusa, na cidade de Pessino, pegou a imagem da deusa e um grupo de sacerdotes e trouxeram toda essa galera para Roma.

Sendo sincero, essa jornada para buscar a imagem é muito mais interessante para mim que os jogos em si. Aliás, interessante o suficiente para ser utilizado como background para fazer umas atividades online! E foi exatamente isso que fizemos: em um "esquenta" para o evento presencial, simulamos em um jogo de tabuleiro a corrida contra o tempo com as etapas da viagem para buscar Cibele.

Tabuleiro do jogo Megalesia Circus

Para os prêmios de cada etapa, já que é uma viagem por várias cidades, fiz cartões postais da Mercurius Express Delivery, um para cada uma das cinco paradas da viagem e um último para a entrada triunfal da deusa em Roma

Os cinco postais do caminho:
1. Roma, 2. Delfos, 3. Pessino, 4. Cnossos e 5. Siracusa

Claro, tomei algumas liberdades criativas com o caminho que aparece no jogo. Roma, Delfos e Pessino aparecem no registro dos historiadores romanos, mas precisava que fossem cinco bases (uma para cada dia útil da semana) e fazer um circuito de corrida, então fiz um arco entre Pessino e Roma para a viagem de volta, dei uma ajustada no tamanho de cada trecho e escolhi dois pontos com alguma relação com os livros do Rick Riordan:

  • Cnossos, na ilha de Creta: lar do Minotauro, um dos primeiros monstros que Percy Jackson enfrenta e ponto de origem do Labirinto de Dédalo; e
  • Siracusa, na ilha da Sicília: onde vivia Arquimedes, um dos maiores inventores e grande matemático dos tempos antigos. No Riordanverso é tido como o "maior filho de Hefesto que já existiu". Porque Hefesto e não Vulcano? Porque era grego. Ninguém é perfeito, né?

Mas afinal, porque a delegação romana está fazendo essa tour pelo Mediterrâneo Oriental?

O início da corrida: ROMA

Tudo começa na Segunda Guerra Púnica, o segundo grande confronto entre Roma e Cartago. Aníbal Barca saiu com suas tropas da Península Ibérica, passou pela Gália e invadiu o território italiano. Ou seja, um inimigo poderoso estava próximo de Roma e conseguindo uma série de vitórias. Ao lado de medidas bem práticas para a defesa, como reforçar as posições nas ilhas, construir novos navios de guerra e levantar novas Legiões para enfrentar o general cartaginense, o Senado decidiu consultar os Livros Sibilinos, um conjunto de textos proféticos e soluções para os problemas futuros.

A resposta que conseguiram interpretar dos livros para essa situação de um general estrangeiro, ameaçando a República com seus exércitos já em solo romano era simples: deveriam trazer a deusa Frígia para Roma. Os romanos levavam as Profecias Sibilinas muito a sério, por isso foi formada e enviada a delegação para a Frígia, para trazer a Mãe dos Deuses para viver em Roma.

Primeira parada: DELFOS

Tá, os romanos levavam a sério as Profecias Sibilinas, mas trazer uma deusa láááá da Frígia para Roma parecia uma coisa solução meio estranha para o problema. Talvez um esquema meio homeopático de combater a doença com seu igual? Enfrentar o inimigo estrangeiro com uma deusa estrangeira? Os Livros Sibilinos não poderiam estar errados, mas a interpretação sim. Para confirmar a profecia e aproveitando que era caminho mesmo, a delegação romana foi consultar o mais famoso oráculo do mundo antigo: o Oráculo de Delfos.

O Oráculo confirmou a interpretação de que o culto da Mater Deum Magna Idaea deveria ser introduzido a Roma e ainda acrescentou: o rei de Pérgamo, Átalo Sóter, poderia ajudar a conseguir esse objetivo e que deveriam garantir que quando a deusa chegasse a Roma deveriam ser recebida pelos melhores homens de Roma. Com essa resposta, o grupo romano seguiu viagem rumo a Pérgamo, para conversar com o seu aliado lá: o rei Átalo Sóter.

Metade da jornada: PESSINO

A delegação romana incluía Marco Valério Levino, que já conhecia o rei Átalo Sóter. Para falar a verdade nesse pedaço da história tem uma certa confusão: uns dizem que o rei topou de primeira entregar a deusa, outros que ele ficou enrolando mas uma chuva de pedras fez ele mudar de ideia rapidinho; uns dizem que a imagem estava bem pertinho de Pérgamo, no Monte Ida, outros que estava lá no templo de Pessino. Uns que ele mandou buscar, outros que ele guiou a delegação até lá... o que interessa é que a delegação conseguiu a imagem da deusa e uns sacerdotes para ir até Roma. Ah, já comentei que a imagem da deusa era uma pedra? Uma pedra que caiu do céu, mas uma pedra. Bom, depois de dois oráculos (os Livros Sibilinos e o de Delfos) falarem que era para levar a pedra para Roma, quem vai discutir, né?

As duas paradas da viagem de volta: CNOSSOS e SIRACUSA

O caminho de volta pelo jeito foi bem tranquilo, nenhuma das fontes fala nada a respeito. Eles estavam em cinco quinquerremes, navios grandes de guerra, um dos objetivos da escolha desses navios era justamente impressionar os outros e demonstrar o poder de Roma. Acredito que dificilmente piratas, ou até mesmo navios batedores da marinha cartaginense, iriam querer atacar esse grupo. Outro ponto para o retorno transcorrer sem maiores problemas é que perto da península Itálica os navios da República de Roma tinham razoável domínio dos mares.

Última parada: ROMA

E finalmente chegamos de volta a Roma! Trazendo a deusa Frígia e seu estranho culto para as terras da República. Ela foi bem recebida pelos maiores e mais nobres cidadãos romanos, ganhou uma procissão pela cidade e jogos foram promovidos. Posteriormente a Megalesia Ludi foi incluída no calendário de festivais e jogos romanos e, por fim, o templo de Magna Máter foi construído no monte Palatino. Uma posição de grande honra e destaque. Mais uma vez Roma prova a sua força integradora.