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terça-feira, 30 de abril de 2024

A Corrida (Maluca) de Megalesia

No final de semana do dia 28/04 tivemos um evento do Acampamento Júpiter SP: um piquenique com treino de swordplay usando o nome do festival romano Megalesia Ludi. Os jogos de Megalesia. Esses jogos foram criados em homenagem a uma deusa "importada" da Frígia que atende por um montão de nomes diferentes: Deusa Frígia, Cibele, Mãe dos Deuses, Deusa Mãe, Grande Mãe, Magna Máter, etc. Agora, como que uma deusa lá da Frígia acaba em Roma e, ainda por cima, ganhando jogos em homenagem a ela e tals?

E por "deusa lá da Frígia acaba em Roma" entendam exatamente isso: uma delegação saiu de Roma, foi até a Frígia onde ficava o templo principal da deusa, na cidade de Pessino, pegou a imagem da deusa e um grupo de sacerdotes e trouxeram toda essa galera para Roma.

Sendo sincero, essa jornada para buscar a imagem é muito mais interessante para mim que os jogos em si. Aliás, interessante o suficiente para ser utilizado como background para fazer umas atividades online! E foi exatamente isso que fizemos: em um "esquenta" para o evento presencial, simulamos em um jogo de tabuleiro a corrida contra o tempo com as etapas da viagem para buscar Cibele.

Tabuleiro do jogo Megalesia Circus

Para os prêmios de cada etapa, já que é uma viagem por várias cidades, fiz cartões postais da Mercurius Express Delivery, um para cada uma das cinco paradas da viagem e um último para a entrada triunfal da deusa em Roma

Os cinco postais do caminho:
1. Roma, 2. Delfos, 3. Pessino, 4. Cnossos e 5. Siracusa

Claro, tomei algumas liberdades criativas com o caminho que aparece no jogo. Roma, Delfos e Pessino aparecem no registro dos historiadores romanos, mas precisava que fossem cinco bases (uma para cada dia útil da semana) e fazer um circuito de corrida, então fiz um arco entre Pessino e Roma para a viagem de volta, dei uma ajustada no tamanho de cada trecho e escolhi dois pontos com alguma relação com os livros do Rick Riordan:

  • Cnossos, na ilha de Creta: lar do Minotauro, um dos primeiros monstros que Percy Jackson enfrenta e ponto de origem do Labirinto de Dédalo; e
  • Siracusa, na ilha da Sicília: onde vivia Arquimedes, um dos maiores inventores e grande matemático dos tempos antigos. No Riordanverso é tido como o "maior filho de Hefesto que já existiu". Porque Hefesto e não Vulcano? Porque era grego. Ninguém é perfeito, né?

Mas afinal, porque a delegação romana está fazendo essa tour pelo Mediterrâneo Oriental?

O início da corrida: ROMA

Tudo começa na Segunda Guerra Púnica, o segundo grande confronto entre Roma e Cartago. Aníbal Barca saiu com suas tropas da Península Ibérica, passou pela Gália e invadiu o território italiano. Ou seja, um inimigo poderoso estava próximo de Roma e conseguindo uma série de vitórias. Ao lado de medidas bem práticas para a defesa, como reforçar as posições nas ilhas, construir novos navios de guerra e levantar novas Legiões para enfrentar o general cartaginense, o Senado decidiu consultar os Livros Sibilinos, um conjunto de textos proféticos e soluções para os problemas futuros.

A resposta que conseguiram interpretar dos livros para essa situação de um general estrangeiro, ameaçando a República com seus exércitos já em solo romano era simples: deveriam trazer a deusa Frígia para Roma. Os romanos levavam as Profecias Sibilinas muito a sério, por isso foi formada e enviada a delegação para a Frígia, para trazer a Mãe dos Deuses para viver em Roma.

Primeira parada: DELFOS

Tá, os romanos levavam a sério as Profecias Sibilinas, mas trazer uma deusa láááá da Frígia para Roma parecia uma coisa solução meio estranha para o problema. Talvez um esquema meio homeopático de combater a doença com seu igual? Enfrentar o inimigo estrangeiro com uma deusa estrangeira? Os Livros Sibilinos não poderiam estar errados, mas a interpretação sim. Para confirmar a profecia e aproveitando que era caminho mesmo, a delegação romana foi consultar o mais famoso oráculo do mundo antigo: o Oráculo de Delfos.

O Oráculo confirmou a interpretação de que o culto da Mater Deum Magna Idaea deveria ser introduzido a Roma e ainda acrescentou: o rei de Pérgamo, Átalo Sóter, poderia ajudar a conseguir esse objetivo e que deveriam garantir que quando a deusa chegasse a Roma deveriam ser recebida pelos melhores homens de Roma. Com essa resposta, o grupo romano seguiu viagem rumo a Pérgamo, para conversar com o seu aliado lá: o rei Átalo Sóter.

Metade da jornada: PESSINO

A delegação romana incluía Marco Valério Levino, que já conhecia o rei Átalo Sóter. Para falar a verdade nesse pedaço da história tem uma certa confusão: uns dizem que o rei topou de primeira entregar a deusa, outros que ele ficou enrolando mas uma chuva de pedras fez ele mudar de ideia rapidinho; uns dizem que a imagem estava bem pertinho de Pérgamo, no Monte Ida, outros que estava lá no templo de Pessino. Uns que ele mandou buscar, outros que ele guiou a delegação até lá... o que interessa é que a delegação conseguiu a imagem da deusa e uns sacerdotes para ir até Roma. Ah, já comentei que a imagem da deusa era uma pedra? Uma pedra que caiu do céu, mas uma pedra. Bom, depois de dois oráculos (os Livros Sibilinos e o de Delfos) falarem que era para levar a pedra para Roma, quem vai discutir, né?

As duas paradas da viagem de volta: CNOSSOS e SIRACUSA

O caminho de volta pelo jeito foi bem tranquilo, nenhuma das fontes fala nada a respeito. Eles estavam em cinco quinquerremes, navios grandes de guerra, um dos objetivos da escolha desses navios era justamente impressionar os outros e demonstrar o poder de Roma. Acredito que dificilmente piratas, ou até mesmo navios batedores da marinha cartaginense, iriam querer atacar esse grupo. Outro ponto para o retorno transcorrer sem maiores problemas é que perto da península Itálica os navios da República de Roma tinham razoável domínio dos mares.

Última parada: ROMA

E finalmente chegamos de volta a Roma! Trazendo a deusa Frígia e seu estranho culto para as terras da República. Ela foi bem recebida pelos maiores e mais nobres cidadãos romanos, ganhou uma procissão pela cidade e jogos foram promovidos. Posteriormente a Megalesia Ludi foi incluída no calendário de festivais e jogos romanos e, por fim, o templo de Magna Máter foi construído no monte Palatino. Uma posição de grande honra e destaque. Mais uma vez Roma prova a sua força integradora.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Passaram os Idos de Março, chegaram as Calendas de Abril

"Cuidado com os Idos de Março!" - esse foi o aviso para Júlio César que Shakespeare colocou na boca de um adivinho na peça que leva o nome do cônsul romano. E por que o aviso? Porque nos Idos de Março Júlio César seria assassinado. Bem que o adivinho podia falar as coisas mais claramente, né?

Diferente do que aconteceu em 44 a.C., no Acampamento Júpiter SP passamos pelos Idos de Março e nenhum dos pretores foi assassinado. Talvez pelo Senado ser mais confiável, ou pelos pretores não parecerem que querem se tornar reis, ou outro motivo qualquer. O que interessa é que atravessamos os Idos de Março sem violência. Como fazer jogos para comemorar datas especiais é uma tradição romana, durante uma semana tivemos jogos online e desafios artísticos no Acampamento Júpiter SP.

Agora vocês já sabem porque eu atrasei os posts aqui no blog. Fiquei organizando e aplicando os jogos e acabei me desorganizando com a agenda aqui. Não participei dos desafios artísticos, eram todos relativos a música, atuação e poesia, nenhum deles o meu forte. Se bem que mesmo que os desafios fossem de áreas que eu me dou bem, fazia parte da organização e não poderia participar de qualquer jeito.

Entre os prêmios para os ganhadores estavam bottons comemorativos dos Idos de Março Sem Sangue 2024, e foi neles que dediquei meus dons artísticos!

Idos de Março Sem Sangue 2024

O desenho mostra uma moeda de ouro gravada com duas adagas, as palavras EID MAR (Idos de Março) e o ano de 2024 em algarismos romanos. Não, não vou colocar a data AUC, os algarismos já são romanos o suficiente. A moeda tem manchas de sangue e, para indicar que os Idos de Março foram sem sangue, um sinal de proibido desenhado em volta. Achei que ficou bem legal e o amarelo com o sangue me lembrou um pouco o smiley de Watchmen.

Mas, além da forma redonda, de onde tirei a ideia de fazer o botton como se fosse uma moeda? Quem acha uma boa ideia fazer uma moeda comemorando um assassinato? Bom, Marcus Junius Brutus achou. Não só achou que a ideia era boa como efetivamente cunhou essas moedas!

Na frente: BRUT IMP L PLAET CEST
(Brutus Imperador - Lucius Plateorius Cestianus)
No verso: EID MAR
(Idos de Março)

Sim, Brutus fez uma moeda com a cara dele de um lado e duas adagas com "Idos de Março" do outro! Fez isso porque ele acreditava que com o assassinato de Júlio César ele estava libertando a República Romana de se tornar uma autocracia (spoiler de 2000 anos: provavelmente ele estava certo, porque pouco depois dos liberatores serem derrotados, Roma se tornou uma autocracia).

Pessoas atentas devem ter percebido que a moeda de Brutus tem uma espécie de "dedal" entre as duas adagas e o botton comemorativo não tem. Esquecimento? Não, decisão conciente. 

Esse "dedal" é a chave para a comemoração de Brutus, na realidade isso é um chapéu chamado pileus e é um dos símbolos de Libertas, a deusa que personifica a Liberdade. Um escravo romano quando liberto tinha a cabeça raspada e recebia um pileus para cobrir a cabeça, é um símbolo de liberdade.

Com essa informação a interpretação da moeda fica mais interessante: Brutus comemora que, através do assassinato de Júlio César (as adagas) nos Idos de Março (EID MAR), ele garantiu a liberdade (o pileus) de Roma.

Agora também fica fácil saber porque o botton não tem o pileus nele: não queremos assassinatos, mas queremos liberdade para todos! Então dentro do sinal de proibido ficam as duas adagas (os assassinatos) e nenhum pileus (a liberdade).

Parte do kit de prêmios para os vencedores das provas artísticas dos Jogos dos Idos de Março Sem Sangue 2024